Cinco dedos da mão e a função do gestor eclesial

Quando eu era criança, minha irmã brincava com a gente, nomeando respectivamente cada dedo da mão. Dizia assim: “dedo minguinho, seu sobrinho, pai de todos, fura-bolo, cata-piolho”.

Hoje, como adulto, percebo que cada dedo é importante para as múltiplas funções da mão, como segurar objetos, tocar violão, digitar, etc.

Assim também, a pessoa que desempenha qualquer tarefa de gestão na Igreja deve desenvolver simultaneamente algumas funções. Isso é comum a vários cargos, como a coordenação da catequese, a animação de um grupo de reflexão e de oração, a organização de pastorais ou o presbiterado. Quais são estes cinco dedos da mão para a gestão da pastoral? Podemos resumir: planejamento, organização, liderança, controle e animação espiritual. Baseado no estudo de Bateman e Snell, “Administração”, Ed. McGrawHill, p.16-18, acrescentar-se-á o que é específico para a comunidade cristã.

1. Planejamento

Hoje, qualquer grupo organizado precisa prever suas ações, para evitar a dispersão de energia ou a repetição que leva à morte lenta. Planejar significa especificar metas a serem alcançadas e decidir com antecedência as ações necessárias para alcançá-las. As atividades de planejamento incluem a análise das situações atuais, antecipação do futuro, determinação de objetivos, decisão sobre o tipo de iniciativas a tomar, escolha das estratégias e determinação dos recursos necessários.

Um planejamento quando bem feito, prepara o caminho para conquistas consolidadas. Deve ser gestado com a máxima participação de todos os envolvidos e ser formulado em linguagem acessível. Como é teórico e prático, faz pensar e ajuda a agir com eficácia. Na sociedade contemporânea, onde as mudanças rápidas deixam as pessoas desnorteadas, o exercício do planejamento participativo ajuda a buscar soluções que dão certa segurança. As pessoas usam o cérebro, as intuições e a sensibilidade que brotam da fé e, assim, identificam oportunidades para criar, aprender, fortalecer e sustentar novas formas de evangelizar. Cabe ao gestor(a) coordenar o planejamento e sempre voltar a ele, para manter o rumo da ação pastoral.

2. Organização

Quer dizer “reunir e coordenar pessoas, informações recursos financeiros e físicos para alcançar os objetivos”. Em qualquer instituição eficaz, a organização de atividades inclui: atrair pessoas competentes, especificar suas responsabilidades, agrupar tarefas em grupos de trabalho, ordenar e alocar recursos e criar condições para que estas pessoas desenvolvam ao máximo suas potencialidades a serviço da missão.

Não se deve confundir organização com estruturas arcaicas e ineficazes. Ilude-se quem acha que uma boa organização exige funções rígidas, relações de subordinação, muitas chefias e papelada em cima da mesa. Nos tempos atuais, estruturas flexíveis e ágeis são as melhores. Compete ao gestor(a) eclesial atrair, formar e manter agentes de pastoral que somem aptidões e multipliquem frutos. Além de criar e modificar as estruturas necessárias para alcançar resultados. Organização dinâmica é como o dedo polegar: necessita ser firme e móvel.

3. Liderança

Significa “estimular as pessoas a serem grandes realizadoras”. O(a) líder motiva sua equipe, comunica-se com uma contato próximo e caloroso, ajuda a monitorar tarefas e inspira os agentes de pastoral a alcançar a metas propostas. Faz como o dedo indicador: sinaliza a direção. Ser líder hoje não é mandar ou “bater amigavelmente nas costas” nos membros de sua equipe. Como os desafios da evangelização são enormes, trata-se de mobilizar as pessoas, para que contribuam com suas ideias e habilidades, realizando tarefas novas.

A liderança baseada no Evangelho se traduz em serviço efetivo. E o seu critério de verificação consiste no protagonismo crescente das pessoas. Qualquer grupo eclesial deve desenvolver a autonomia, a criatividade e o trabalho em conjunto nos seus membros e com seus interlocutores. Certa vez fui visitar uma creche na periferia de São Paulo e fiquei impressionado com a proposta pedagógico-pastoral de lá. As educadoras estimulavam os bebês, desde pequeninos, a desenvolver a proatividade, a se moverem, a conquistarem espaços. Uma das funções mais importantes do gestor(a) eclesial é exercitar a liderança que aglutina e forma novos líderes.

4. Controle

É uma palavra que causa reação negativa em muita gente. Ninguém gosta de ser controlado. E na Igreja há uma compreensão equivocada sobre isso. Graças a uma herança moralista e autoritária, tende-se a controlar o comportamento dos outros, a cobrar demais e até sufocar as pessoas cujo comportamento sai do padrão estabelecido. Mas, estranhamente, não se controlam os processos. Na gestão contemporânea, “controle” significa monitorar as pessoas e os processos, para verificar se os objetivos estão sendo alcançados. Caso isso não esteja acontecendo, redirecionam-se as atividades.

Controlar é necessário na medida certa. Sem ele, há caos. Em demasiado, limita sua capacidade criativa. Há um princípio sábio a seguir. Quando um processo ou uma pessoa está se iniciando, deve haver maior monitoramento do gestor(a). À medida em que se desenvolvem, o controle se torna menor. No começo, essa função pode ser o dedo maior. Depois, será o “minguinho”.

5. Animação espiritual

O que diferencia a ação pastoral da Igreja de outra organização qualquer é a intensidade na qual se vive, se celebra e se anunciam os valores de Jesus e do Reino de Deus. É triste constatar, às vezes, que a diferença reside no amadorismo, na forma de fazer as coisas sem planejamento e avaliação ou na concentração de poder. Ora, o que qualifica a gestão eclesial é o seguimento a Jesus. Nele buscamos inspiração, dele aprendemos a priorizar os pobres, os fragilizados, os que estão à margem. Com Ele, fazemo-nos aprendizes, discípulos.
Embora exerçamos funções distintas, somos uma comunidade de irmãos e irmãs, cujo único mestre e Senhor é o Cristo. Quem exerce uma função de coordenação deve continuamente “vigiar e orar”, para que as motivações perigosas do poder não contaminem sua atuação. Um gestor(a) eclesial deve ser servir das melhores ferramentas gerenciais. Precisa estudar, ler, estar conectado com o mundo, inovar. Cercar-se de pessoas que o ajudem a ser cada vez mais eficaz. De outro lado, o convívio diário com a Palavra de Deus abre-lhe um espaço inusitado de gratuidade e de paz no coração.
A Igreja deve se apropriar dos bons mecanismos da gestão, mas não pode ser administrada somente como uma empresa. O Espírito Santo, com seus múltiplos dons, na diversidade de muitas línguas e expressões, circula na comunidade eclesial como o sangue que oxigena a mão e os dedos, mantendo-lhes vivos. O Espírito leva o gestor(a) eclesial a alimentar continuamente sua identidade de “discípulo e missionário”.

Planejamento, organização, liderança, controle e animação espiritual são competências que o gestor eclesial desenvolve, juntamente com outros membros da comunidade cristã. Cada vez mais, somos chamados a servir o povo de Deus, com generosidade e empenho, seriedade e alegria. As mesmas mãos que tecem os fios, cozinham, digitam, são também as que acariciam, acolhem o abraço, brincam e tocam instrumentos musicais. São muitos dedos da mesma mão. E muitas mãos em mutirão.

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