Teologia e pastoral caminham juntas

Teologia e pastoral estão a serviço da mesma causa: a evangelização. Ambas se interpenetram e prestam ajuda recíproca. Contudo, também estão em contínua tensão. Cada uma delas apresenta natureza própria, disputando o tempo, o empenho e a energia do presbítero e do agente de pastoral. Vejamos como isso acontece e como superar seus impasses.

A teologia ilumina a pastoral, fornecendo conceitos que ajudam a fé a purificar-se de concepções ultrapassadas ou insuficientes. Fornece instrumentos que auxiliam a compreensão e a reinterpretação atuais dos dados da fé. Ao mesmo tempo, oferece à prática pastoral chaves para se ler, à luz da fé, realidades humanas significativas, como o trabalho, a relação familiar, o lazer, a sexualidade, a ecologia, etc.

A pastoral ilumina a teologia enquanto levanta perguntas que lhe possibilitam aprofundar a fé, de forma encarnada. Por exemplo: a solidariedade com os pobres gera a pergunta sobre a dimensão social da fé. Cristãos metidos no mundo do trabalho e da gestão exigem uma ética religiosa flexível e em diálogo com sociedade e o mercado. A experiência de quem acompanha doentes e moribundos impulsiona a reler o que se diz sobre a morte e a vida eterna. Efeito semelhante tem o crescente protagonismo das mulheres e o engajamento de cristãos no movimento ecológico. Apelos da realidade estimulam a busca de novas leituras da fé. Por fim, iniciativas práticas voltadas às crianças, aos idosos, aos pobres, constitui também um critério para verificar se o discurso teológico é fecundo, se suscita vida em abundância (Jo 10,10).

O conflito

A tensão entre teologia e pastoral dá-se pelo fato de ambas apresentarem exigências próprias, por vezes no interior da mesma pessoa ou grupo. Sob distintos pontos de vista, a pastoral significa mais que a teologia e a teologia representa mais que a pastoral. A pastoral supera a teologia, pois exige mais do que apresentar conceitos corretos. Ação pastoral consequente requer várias qualidades e aptidões: paixão pela causa de Jesus e seu Reino, presença fraterna junto às pessoas, sensibilidade para sintonizar com elas em seu sofrimento e em suas alegrias, metodologia eficaz e participativa, etc. A doutrina não deve ser somente correta. Deve ser compreensível e significativa para os interlocutores.

A teologia ultrapassa a pastoral, pois não se esgota nas respostas imediatas emanadas da prática. Ver à distância exige o custoso processo de “subir à montanha”, pensar com profundidade os dados da realidade e da própria teologia. A teologia, como qualquer saber elaborado, não “começa do zero”. Necessita de intuição e sensibilidade, mas não se faz somente com elas. Requer-se tempo, habilidade, treinamento e paciência para “polir” as reflexões brutas e dar-lhes consistência, e para alcançar mais precisão dos conceitos. É necessário conhecer a bibliografia mínima para determinado tema, ler e pesquisar, evitando assim emitir parecer superficial, ou mesmo equivocado.

A relação entre teologia e pastoral vê-se ameaçada pelo intelectualismo e pela superficialidade. No primeiro caso, o padre ou agente de pastoral apresentam conteúdos completamente abstratos, sem preocupar-se com a incidência deles na vida das pessoas. No segundo caso, cede-se às urgências das demandas pastorais ou às palavras superficiais que garantem sucesso. Sem tempo para estudar e pensar, procura-se simplificar tudo, ao extremo. Resultam daí a queda do potencial de reflexão e a incapacidade de compreender em profundidade tanto a fé como os desafios que a interpelam hoje.

Teologia e pastoral no curso acadêmico

Dificilmente se resolve a contento a relação entre reflexão teológica e prática pastoral, no curso acadêmico de teologia. Os estudantes repetem a mesma cantilena: “O curso de teologia é abstrato”, “a teologia está longe da vida”, “é um conhecimento inútil”, etc. Parte deste “lamento” fundamenta-se em fatos. Por ser exigente e arriscado identificar, aprofundar, “redestilar” e inserir questões centrais suscitadas pela prática pastoral na teologia, os professores tendem a ignorar esta possibilidade. Ademais, tanto para os alunos como para os professores, exige-se o complexo exercício de mudar o “registro” do âmbito do fenômeno para o da reflexão, do particular para o geral, do “acho que” para uma hipótese viável.

Por vezes, os estudantes trazem problemas à sala de aula, de natureza não explicitamente teológicos, mas metodológicos, relacionais e institucionais. A teologia tem pouco a dizer sobre eles. O quadro torna-se mais preocupante quando se encontram em um curso alunos que não mostram interesse nem pela pastoral nem pela teologia.

A pastoral apresenta implicações concretas para a teologia e vice-versa. Durante o período de formação teológica do estudante aconselha-se o acompanhamento pastoral e a participação ativa em uma comunidade. Com isso, o aprendiz de teólogo(a) aperfeiçoa sua intervenção nos processos de evangelização. A partir da prática, burila-se a metodologia mais eficaz.

O “acompanhamento pastoral” aborda aspectos concernentes à personalidade do estudante e sua forma de lidar com as pessoas. Ensina a atuar de forma organizada e utilizando o pensamento estratégico. O acompanhamento pastoral em uma comunidade formadora, para além da faculdade de teologia, favorece um espaço comunitário de partilha e oração sobre a pastoral. Revela-se o grande segredo da eficácia apostólica e da unificação interior entre teologia e pastoral. Alguns destinatários da ação pastoral, especialmente cristãos engajados, contribuem enormemente para a vida do estudante-agente, por meio do testemunho de vida, de suas crises e conquistas existenciais, do compromisso efetivo na transformação social. Não raras vezes apontam as falhas e limitações do seminarista e do agente pastoral e são seus companheiros na aventura da fé.

A grande novidade do atual momento consiste em fazer da pastoral uma dimensão que “fecunde” a teologia. Evitando o simplismo de transformar as aulas em “receitas pastorais”, o professor mantém em seu horizonte teológico as grandes perguntas da pastoral. Ajuda o(a) estudante a desenvolver a sensibilidade para as grandes questões de sua região e do mundo contemporâneo. A prática pastoral, mesmo se limitada a um curto período, contribui para suscitar perguntas teológicas e verificar parcialmente a utilidade da teologia.

Conclusão aberta: teologia + pastoral

O discurso teológico em uma instituição de ensino superior não se forja com linguagem popular. Tampouco a evangelização utiliza linguagem sofisticada e cientificamente rigorosa. O discurso acadêmico e o discurso pastoral têm cada um sua própria linguagem e perspectiva. Respeitar o limite e o alcance de cada um favorece uma tensão produtiva, enriquecedora para ambos.
O grande desafio hoje para a evangelização é este: os teólogos necessitam fazer teologia com o olhar e o coração relacionados com a pastoral, a vida das pessoas. Uma teologia conectada com o mundo, em diálogo com outros saberes. E quem atua na pastoral deve reservar tempo e energia para ler, discutir, aprofundar sua fé e se manter atualizado, com ajuda da teologia.

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